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“O sonho das mulheres de verdade”, por Celia Belem, pesquisadora do consumo

Celia Belem, sócia da Arquitetura do Conhecimento, estudou o comportamento das mulheres brasileiras para concluir com questões que podem ajudar quem vende para o sexo feminino.

“O sonho das mulheres de verdade”, por Celia Belem, pesquisadora do consumo

Este título, “Mulheres de Verdade”, foi escolhido porque nos últimos tempos tenho sido assediada por várias matérias, menções e até trabalhos que mostram mulheres sob um novo ângulo. Acho que todos se cansaram da velha ode às mulheres multifacetadas que são ótimas e brilhantes em tudo o que fazem na vida pessoal, emocional e profissional. Como o tema vem me procurando insistentemente, resolvi abordá-lo porque, como diria Jung, é mais do que coincidência, é sincronicidade.

“O sonho das mulheres de verdade”, um estudo de Celia Belem, arquiteta e pesquisadora do consumo

Em estudos recentes conduzidos pela minha empresa entramos em contato com inúmeras mulheres de Norte a Sul do Brasil, tratando de seus papéis, considerados os mais conservadores, como o de dona de casa e de mãe, mesmo quando falávamos com mulheres que trabalhavam fora, até porque nas classes menos privilegiadas não há empregada doméstica e, na ausência de uma mãe ou sogra para ajudar, a mulher é a responsável por todas as atividades do lar.

 Considerei que seria o caso de falar sobre a vida das mulheres de classe C sob outra ótica, já que elas pertencem a uma classe que foi cantada em prosa e verso, especialmente, sobre sua capacidade e importância no consumo, agora bastante diminuída.

Por isso gostaria de aproximar a lente e falar destas mulheres, de como elas buscam seus objetivos e não de sua capacidade de consumo. É muito interessante vê-las como indivíduos em todas as suas dimensões, até porque seus valores e atitudes determinam o que compram e consomem.

Foi possível observar que uma grande parte da população feminina agregou às suas tarefas diárias o trabalho fora de casa (56% das mulheres paulistanas – SEADE), sem se desobrigar das atividades domésticas dada a impossibilidade da ajuda de uma empregada, completamente fora do seu orçamento doméstico. Por outro lado, o fato de ter seu próprio dinheiro garante, de fato, o consumo de vários produtos que, caso dependesse apenas do salário do marido, não seriam consumidos, tanto por sua capacidade de compra, quanto por seus critérios e necessidades. Apenas como exemplo: embora contribuam com o orçamento familiar, elas podem comprar alimentos que facilitam o trabalho de cozinhar, como os produtos prontos ou semiprontos, produtos de limpeza, guloseimas para seus filhos, assim como brinquedos e roupas, embora sempre estejam atentas ao preço e às melhores ofertas realizando um verdadeiro malabarismo financeiro. Não dependem, e nem poderiam, do salário do marido que nunca está voltado para estas ‘pequenas e gratificantes coisas’. Com todo este aprendizado, elas estão sendo bastante parcimoniosas na hora de gastar dinheiro. Elas aprenderam a importância de economizar, procurar ofertas para, principalmente, poder oferecer tudo o que sua família necessita e deseja. Este é o resultado positivo do trabalho fora de casa. Mas, quanto pagam para ter esta independência financeira?

Elas pagam muito, um valor astronômico, debitado de sua força física e emocional porque, somadas às necessidades da família, colocam-se suas expectativas e sonhos pessoais e do que projetam para seus filhos, resultando em uma realidade acachapante e exaustiva, quando vista de perto.

Só para se ter uma idéia, a seguir um arrolamento de suas principais tarefas diárias, uma média do que ouvimos de um enorme contingente feminino que trabalham, das classes B2 e C (Critério ABIPEME) distribuídas por várias Praças de Norte a Sul do Brasil, incluindo a cidade de São Paulo:

4:00h a 5:30h: acordar, preparar as crianças para a escola, fazer a marmita do marido e deixar o almoço para os filhos, tomar banho, se arrumar, levar as crianças para a escola e ir para o trabalho; 8:00h às 18:00h: trabalham; 19:00h a 20:00h (dependendo da distância e, principalmente, do trânsito): volta para casa, verificar a lição das crianças, prepara e serve o jantar, cheia de dúvidas a respeito do que é saudável, do que engorda e do que faz mal, ‘ouvir’ as novelas, arrumar a cozinha e depois que todos vão dormir limpar a casa, lavar e passar roupa. Antes de dormir conferem se a roupa que filhos e marido vão usar estão limpas e passadas.

Tudo isto explica o cansaço, mas não há reclamação da sorte, nunca há atribuição de algum problema a outros, são sempre orgulhosas de suas conquistas e da relação afetiva com sua família, incluindo mãe, pai e irmãos.

O marido, seja o primeiro ou o segundo, raramente contribui em alguma tarefa, conservadoramente restritas à mulher. Não se discute. O marido, na maior parte das vezes, tem o direito de descansar depois do trabalho, ver o noticiário na TV, o jogo de futebol e ir dormir, porque afinal ele acorda cedo para trabalhar... como se ela não trabalhasse também.

Elas nada esperam deles, fazem apenas comentários engraçados sobre a incapacidade masculina de ajudar em tarefas as quais aparentemente poderiam contribuir como, por exemplo, ajudar ou supervisionar as tarefas da escola das crianças.

Parece que o mundo não deve nada para elas. Elas são donas do seu destino. Apanhadas no furacão da revolução feminina que as impulsionou para fora de casa, prometendo independência financeira e pressionadas pela necessidade de incrementar o orçamento doméstico elas vão em frente. Estas batalhadoras se sentem gratificadas por terem um emprego, às vezes dois, em nome de construir uma vida mais estruturada, sonhando em voltar a estudar e permitir que seus filhos tenham um futuro melhor que o delas.

Elas não reclamam, resolvem.

Elas não se separam, garantem um pai para seus filhos.

Elas não gastam, guardam.

Elas são tratores, leoas, vestidas com coletes à prova de bala, dormem com um olho aberto e outro fechado.

E, se por um lado podemos pensar que elas não têm cultura e conhecimento formais, para compensar têm uma disposição e coragem que não se pode pagar com cartão de crédito: é instintivo, quase animal, atributos que as “altamente educadas e privilegiadas” lutam dia após dia para não precisar usar.

Esta forma de viver é tocante e emocionante porque quando falamos com mulheres de classes mais altas que trabalham e mais conscientes de seus direitos e dos novos valores e demandas, o discurso é pontuado por reclamações e críticas ferozes. Neste caso, parece que o mundo, o marido, as empresas e os empregadores são eternos devedores e não reconhecem o seu valor. Suas questões mais importantes referem-se ao seu mundo interno, à falta de tempo para si mesma, incluídos os cuidados pessoais e o lazer.

Não é que as mulheres de classe C desconsiderem o cuidado pessoal ou as atividades relaxantes, mas o seu olhar está voltado mais para o futuro do que para o presente. Lá adiante, acreditam, vão poder relaxar e viver melhor, quando tudo o que planejarem virar realidade. E por isso, pode-se imaginar o que a recessão econômica está fazendo com elas. Não querem desistir dos sonhos, mas a realidade acachapante bate à sua porta, ao seu ou ao emprego do marido. Assim, é preciso manter o possível e descartar o impossível.

Só para terminar, quais marcas estão se colocando ao lado destas mulheres de verdade? Quais estão preocupadas com seus problemas e necessidades? Quais estão tendo a sensibilidade de atendê-las oferecendo qualidade e preço? Posso estar enganada, mas pelo que vi nas suas casas, parece que as marcas genéricas e aquelas mais acessíveis estão mais próximas, embora elas ainda continuem desejando comprar as marcas premium. A pergunta inevitável é a seguinte: e se o futuro planejado por elas acontecer? Será que elas voltam para as grandes marcas ou ficam com as outras que vêm melhorando, cada vez mais, sua qualidade e que ficaram ao seu lado quando mais elas precisaram?