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PELÃO: BOÊMIO PROFISSIONAL E DESCOBRIDOR DE TALENTOS

O maior cervejófilo do Brasil (segundo a revista Playboy), produtor musical e dono de uma eclética e vasta coleção de amigos representantes da verdadeira cultura brasileira, o paulistano João Carlos Botteseilli, o Pelão, é antes de tudo um boêmio. Conhecedor e conhecido nos bares mais emblemáticos da boemia no Rio e São Paulo, Pelão diz nesta entrevista à jornalista Leila Reis, o que torna famoso um restaurante ou bar. "O dono precisa deixar o cliente crescer sozinho dentro do bar, transformar o estabelecimento na sua casa ou escritório".

PELÃO: BOÊMIO PROFISSIONAL E DESCOBRIDOR DE TALENTOS

Conhecedor e conhecido nos bares mais emblemáticos da boemia no Rio e São Paulo, Pelão diz nesta entrevista à jornalista Leila Reis, o que torna famoso um restaurante ou bar. "O dono precisa deixar o cliente crescer sozinho dentro do bar, transformar o estabelecimento na sua casa ou escritório".Meio desanimado com os gambás domésticos (pessoas que preferem encher a cara dentro de casa), Pelão ainda defende o bar como "a grande pilastra da sociedade": é lá que a vida acontece, diz.

Produtor de mais de 300 discos e responsável pela chegada do compositor Cartola à indústria fonográfica, aos 70 anos Pelão tem em seu currículo discos memoráveis e é lembrado por todos como um dos grandes incentivadores do talento brasileiro.


Leila Reis - Qual é a diferença entre a boemia carioca e a boemia paulista?

Pelão – Eu não vejo muita diferença. Boemia para mim sempre foi fazer do bar, do restaurante, um escritório. Como viajava muito, eu marcava as reuniões nos bares. No Bar do Alemão, em São Paulo, no Lamas, no Rio, no Bar do Leite, no Recife. “Cheguei, estou aqui”. Às sete ou às nove da noite, eu tinha gente marcada no bar.

LR – E como é que você começou isso Pelão? Quando você era produtor musical?

Pelão - Eu nem era produtor ainda. Eu trabalhava na TV Tupi e, quando eu ia para o Rio, precisava ficar em lugar barato por causa da diária baixa. A gente recebia o salário com muito atraso, então o hotel era sempre meia boca. Então era melhor marcar reunião em bar. Assim eu conheci bem a Lapa do Rio, onde fiz grandes amigos e até briguei.

LR – Brigou?

Pelão – De porrada. Mas foi uma trapalhada. Uns caras quiseram me pegar: tinha um cara atrás e dois na frente, achei melhor correr pra frente. Dei um pulo na hora em que estava chegando perto e acertei os dois com a mão esquerda e direita e eles caíram. Na verdade eles levaram um susto! Quando levantei do chão, bati com a cabeça no terceiro. O Madame Satã viu e gostou do menino de São Paulo. Fiquei sendo o reizinho dele na Lapa, mas não tive nada com ele, não.

LR – Como era sua vida de boêmio no Rio?

Pelão – Eu ficava no Hotel Bragança, a primeira vez que fui ao Lamas (restaurante no Flamengo), foi com o Idibal Piveta, que tinha assumido a presidência da UNE. Fui como guarda-costas dele. Era no Lamas onde os estudantes universitários recebiam correspondência da família. Depois se tornou ponto de jornalistas, como Ney Hamilton, do Jornal do Brasil. Eu era atleta de regatas, Sérgio Cherques, um comerciante de imóveis, e o arquiteto Pedro Paulo Saraiva gostavam de regata, me fixaram no Lamas.

LR – Você foi atleta?

Pelão - Já fui fundista, arremessador de dardos, remador de regata. Com o Sérgio Cherques, que escreveu o dicionário de termos náuticos mais completo do mundo, eu conversava muito sobre mercado, política, sobre o dia a dia, sempre bebendo e fumando. Num tempo em que se podia fumar. Aliás, eu não entendo até hoje porque proíbem fumar no Brasil. O brasão da República Brasileira tem um pé de fumo lindo, a coisa que mais se destaca.

LR – Todo mundo sabia quem era o Pelão no Lamas?

Pelão – Tinha a mesa do Pelão, ninguém podia sentar lá sem ser chamado por mim. Era conhecida como a roda dos paulistas, mas o único paulistano era eu. Tinha gente de todos os estados: Pernambuco, Paraná, Rio Grande do Sul. O bar era a grande pilastra da sociedade. É ali que se resolve tudo, onde se faz negócio, toma prejuízo, ganha algum. E assim eu fiz grandes amizades. Nunca fiz amigos em leiterias e casas de suco.

 

PELÃO: BOÊMIO PROFISSIONAL E DESCOBRIDOR DE TALENTOS

 

LR – Quem eram as figuras que frequentavam o bar com você?

Pelão – Adorava bater longos papos com Aldir Blanc (compositor), Antônio Calado (escritor) gostava muito da gente também. E vinha pessoal do cinema, todo mundo. No Rio, eu não era muito visto. De segunda-feira, tinha um negócio de samba no Teatro Opinião, em Copacabana, de onde eu saia com Nelson Cavaquinho e um pessoal depois do show. Era 1968, 69...

LR – E a sua vida na música?

Pelão – Eu tinha saído da RCA e uma tarde resolvi ir até a Odeon, no centro do Rio. Lá era o point, porque vagabundo não tinha o que fazer, ia pra lá de tarde. Cheguei e lá estavam o Marçal (da cuíca), Renato, do Renato e Seus Blue Caps, Mariozinho Rocha (produtor musical). Todos os artistas estavam na Odeon, de Milton Nascimento a Agnaldo Timóteo, Clara Nunes, 14 Bis, Beto Guedes, Dori Caymmi (sempre rancoroso, muito amargo). A Odeon não vendia muito disco, mas o suficiente. Perguntei para turma: "Será que Milton Miranda (diretor artístico da Odeon, o melhor que conheço) me recebe?" E fiquei conversando sobre cuíca com o Marçal até que chegou a secretária do Milton Miranda pedindo para eu ir até a sala dele. Me deu até uma tremedeira, pois pensei: “O que vou falar?” Ele disse que me conhecia da TV Tupi de São Paulo e perguntou se eu tinha algum disco para fazer com ele. Eu disse que gostaria de produzir o Nelson Cavaquinho do jeito que ele é realmente, com o violão e o cavaquinho dele. “Pelão, você pode fazer esse disco, em São Paulo?” E eu: “Claro que posso”, sem saber quanto ia cobrar ou quanto iria receber. Saí e pensei: “E agora? Como é que é produzir um disco?”

LR – Você nunca tinha produzido?

Pelão – Nunca! Na Odeon, falei com o Grimaldi sobre os músicos que eu precisava. A gravadora tinha o melhor som do Brasil, eram dois canais só. Era um museuzinho, mas o técnico tirou um bom som, mas para chegar onde eu queria, foi bravo. Eu antecipei meu infarto em três anos. O disco foi um sucesso, não de execução, mas de crítica, de mídia.

LR – Era uma capa com uma foto em preto e branco, não é?

Pelão – Era uma foto que eu tirei no Teatro Opinião. O Nelson estava de porre e eu também. Eu dei o crédito para os filhos de dois amigos meus. E teve elogios. Um jornal de Curitiba escreveu uma página sobre a dupla de fotógrafos.

LR – Mas você já conhecia a parte técnica por causa da televisão?

Pelão – Também, pois tinha trabalhado com o maestro Enrico Simonetti (que estrelava o programa Simonetti Show, na TV Excelsior), mas eu também tinha uma sensibilidade. Eu era do Sans Club e a gente fazia shows no Teatro do João Caetano.

LR - E o que você fazia no programa do Simonetti?

Pelão – Eu era assistente de produção, mas também fazia palhaçada. Era tudo uma farra! Eu gostava de uma bela orquestra e já sacava o que era uma coisa e outra, qual era o som. E sabia a diferença de melodia e harmonia. Não fiz escola nenhuma, não sou PHD em nada. A minha formação foi em bar, conversando.

LR – Agora vamos para São Paulo: como foi sua história com o Bar do Alemão?

Pelão – Eu ficava com uma moça, que eu não posso falar o nome, que era muito visada pois era uma atriz de sucesso na televisão. Um dia (faz 48 anos) passando pela Avenida Antártica vi um barzinho de madeira, tipo alemão, e fui lá de noite. Era a inauguração. Havia um par de senhores tocando chorinho. Resolvi levar ela lá no segundo dia de vida do Alemão porque o bar era agradável e o chope era bom. O bar fechava 21h30, 22h, eu acabei ferrando com eles porque comecei a levar o Nelson Cavaquinho, que ficava tocando três dias e três noites sem dormir, Cartola, músicos que gostavam de tocar de noite. Logo depois o Estadão (jornal) veio o Bairro do Limão, os jornalistas paravam lá para comer alguma coisa e beber. Assim como um pessoal que trabalhava na Editora Abril.

LR – Você continua indo ao Bar do Alemão?

Pelão – Ultimamente eu tenho saído pouco por causa de umas encrencas (doenças), mas só saio para ir lá, onde encontro o pessoal pra conversar.

LR – O que você fez depois do disco do Nelson Cavaquinho?

Pelão – Quando me perguntaram se eu tinha mais algum ideia de disco falei: “Adoniran Barbosa”! Na época, havia no Bixiga um projeto nosso chamado Segunda, o Samba é Lei, um puta sucesso artístico, mas nem tanto de público. Adoniran agradava muito, pois ele era de São Paulo, todo mundo conhecias as músicas e o acompanhava na Rádio Record, como humorista. Ela era o Charutinho nas Histórias da Maloca. O primeiro problema do disco foi com a censura: proibiram três das 14 músicas. Chamei meu grande irmão, o advogado de preso político Idibal Piveta para ir comigo na Polícia Federal. Demos uma puta sorte porque o delegado tinha estudado com o Idibal no primário. Pensei: vou me dar bem. Fui apresentado ao delegado e expliquei que as músicas haviam sido gravadas nos anos 50. Que o jeito de falar errado não era coisa de analfabeto e que a maioria do povo brasileiro entendia a poesia do Adoniram. E ele liberou. Antes de sairmos o delegado soltou: "Tem um cara aí que eu quero pegar, um tal de César Vieira, que fez uma peça esquerdista", nós nos olhamos, agradecemos e saímos da Avenida São João.

LR – Mas houve outros discos do Adoniran?

Pelão – Seis meses depois me chamaram para falar sobre o Adoniran. Naquela época era de praxe a Odeon mandar uma cartinha em papel azul agradecendo aos serviços prestados e dispensando o artista. Quando cheguei lá, disse para o diretor Roberto Buzzoni: "Pelo menos vocês tiveram a dignidade de me chamar e não mandar aquela cartinha azul". Buzzoni me disse que o disco do Adoniran estava vendendo muito e o mercado estava pedindo outro. Perguntou se eu podia fazer outro disco em 15 dias! Eu disse: o disco está pronto!

LR - E como você se virou?

Pelão - Liguei para o Adoniran e falei que íamos gravar outro disco com músicas dele. Ele respondeu: "Na semana que vem". Eu disse: "Nada disso, amanhã você precisa estar as duas da tarde no estúdio! Adoniram nem sabia o que ia cantar. O primeiro dia de gravação não rendeu muito, mas outros foram muito bem. Eu sempre fui de terminar um disco em dois ou três dias. Coloquei na contracapa um texto do Antonio Cândido sobre o Adoniram, que até hoje os intelectuais têm orgasmo quando leem.

LR - Adoniram era um boêmio também?

Pelão – Ele não gostava muito do Rio. São Paulo era a cidade por ele andava. Toda tarde ele dormia das duas as quatro no Hotel Ibiá, na Avenida Ipiranga. Nessa época ele já não era tão boêmio. Ficava no bar até onze da noite. Para ele, grande status era ter um táxi na porta do bar enquanto ele tomava whisky nacional. Ele era muito controlado com dinheiro, sabia o que podia fazer.

LR – Quando você gravou com o Cartola?

Pelão - Foi em 1974, logo depois do Nelson Cavaquinho. Ninguém queria gravar o Cartola. A Polygran, na época Phillips, recusou quando ofereci dizendo que lá não era asilo. Eu escutava e ficava puto. Até que um dia, nessas rondas dos bares - eu saía da Tupi ia para o Bar do Zé (na Rua Maria Antônia), de lá para o Bar do Alemão e depois para o Jogral, na Rua Avanhandava. Um dia encontrei o Aluizio Falcão, diretor artístico da gravadora Marcus Pereira, com o qual eu já havia trabalhado. Eu estava bêbado e ele também quando me ajoelhei aos pés dele no Bar Riviera (na Rua da Consolação com a Avenida Paulista) e pedi para gravar o Cartola. Ele me pediu para falar com ele na manhã seguinte, na gravadora. Cheguei vem cedo e quando dei bom dia, ele me disse para pegar uma passagem para o Rio para fazer o disco do Cartola.

LR - Como Cartola reagiu?

Pelão – Quando cheguei na casa dele, no Morro da Mangueira, e contei, ele não acreditou. Cartola pensava que nunca ia gravar na vida porque muita gente havia prometido e nada. E falei as dez músicas que eu queria no disco e ele concordou. Liguei para os músicos e montei o time. Ali ninguém era bobo, ninguém precisava saber que música que era, que a gravação saia. Para minha sorte o técnico de som era o Garrincha, um cara que sabia tudo. E aí foi aquele estouro.

LR – A foto da capa, em branco e preto, era sua também?

Pelão – Fiz a foto na casa do Cartola. É uma foto bem ruim, mas fez sucesso porque Cartola era uma lenda.

LR – Como você, um paulista que não era músico, conseguiu gravar mais de 300 discos?

Pelão – Acho que alguma coisa fez com que eu cruzasse com grandes brasileiros..

LR - Ainda existem bares que são pontos de encontro onde as pessoas discutem a vida?

Pelão – Hoje em dia eu diria que existem poucos. Eu escolho os meus: o Alemão, Tiro Liro, o Pasquale, Pé pra Fora e a Dona Felicidade, em São Paulo. No Rio, eu quase não vou mais. Gosto do bar da dona Maria, perto da casa do Aldir Blanc, na Tijuca...

LR – Do seu ponto de vista, o que o dono de bar precisa fazer para atrair os boêmios?

Pelão – Deixar o cliente à vontade, não encher muito o saco oferecendo coisas. O segredo é deixar o cliente crescer sozinho dentro do bar.

LR - E como que é crescer dentro do bar sozinho?

Pelão – Transformar o bar em escritório, em casa... Eu cheguei a trocar cheque de R$ 30 mil, no Lamas.

LR – Você acha possível acontecer isso nos dias de hoje?

Pelão – Acho muito difícil. Hoje em dia se usa mais cartão: 70, 80% da receita vem dele. 


LR – Você ainda tem conta no Alemão até hoje?

Pelão – Tenho em todos os bares que eu vou. É uma homenagem que os caras fazem. Paga amanhã, paga outro dia! Eu tenho conta no Les Deux Magots, em Paris (Place Saint-Germain-de-Prés). É o meu Alemão lá.

LR – Para um bar dar certo ele precisa respeitar o tempo e o jeito dos clientes. Você considera que esse tipo de bar produtor das grandes reflexões?

Pelão – Não existe só isso, tem aqueles companheiros que vivem se queixando da vida, o que não é legal. Hoje existe muitos gambás domésticos, caras que enchem a cara dentro de casa....

LR - Os grandes encontros e discussões aconteciam porque não havia o celular?

Pelão – Isso mesmo: o mundo chegava para você ali na mesa do bar. Os amigos, que vinham de lugares diferentes, traziam as notícias. Era a internet, o Gooble que se sentava na nossa frente. Eu conhecia no bar quem mandava na energia elétrica e na aviação do país. O bar é a grande pilastra da sociedade. Quando a pessoa fala de um lugar onde estive, a primeira coisa que cita é um barzinho no qual se sentiu bem.

 

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